“É altamente provável que nenhumx de nós tenha algo relevante a dizer. Mas se não dissermos, como vamos saber?”
A mente não é lugar para pensamentos sérios.
Externalizar, escrever, falar, significa se livrar daquilo que está atrapalhando. Nada do que fica no plano do pensamento tem existência real neste mundo de fantasia. Botar pra fora os devaneios significa ilustrá-los e demonstrar de forma irrefutável para si mesmx e para todxs como são ridículos.
Não te preocupa. Eu tenho me expressado muito e nunca produzi nada de útil. Se tu não costuma se expressar, como é o caso da maioria das pessoas que eu conheço, é altamente improvável que tenha algo pra te envergonhar, porque em verdade a gente só fala besteira de qualquer forma. É inevitável. Falar, escrever, significa estar erradx. Mas se a gente não disser, não botar pra fora, como vamos saber disto?
Considerando que há uma verdade, para toda e qualquer verdade, não existe verdade que possa ser expressada em uma construção léxica.
Se está escrito é mentira. Se está dito, é mentira. Mas se tu não permitir que tu mesmo confronte, ou que outrxs confrontem o que tu pensa, tu não vai te livrar desta mentira e vai continuar no teu mundo de fantasia, achando que a tua fantasia é a verdade. Mostra a todxs, expõe para todo mundo ver, e percebe como são ridículas aquelas coisas que tu assume que são irrefutáveis, que tu considera como tesouros incalculáveis, e que guiam a tua vida inteira.
Toda afirmação pode ser destruída. Nenhuma crença é verdadeira. Expõe o que tem valor pra ti, e percebe como sempre foi um lixo tóxico. Joga fora. Recicla-te. Dá espaço para o novo.
Se tu tem medo de te expressar, é porque de alguma forma, consciente ou inconsciente, tu sabe que aquilo que tu tem como certeza pode ser facilmente destruído por qualquer pessoa que confrontar o teu pensamento. E porque é que tu vai deliberadamente ilustrar teus devaneios, pra que alguém te prove que é mentira, e tu perca as tuas migalhas que tu considera um tesouro?
Realmente não faz sentido isto. Não faz sentido se expor ao ridículo, e é provável que tu fique te escondendo atrás de subterfúgios como por exemplo, mas não limitado a "ninguém me entende", "ninguém me compreende", "ninguém me respeita", "todo mundo me xinga", "todo mundo me critica". Não é culpa tua. Isto é tão viciante, tu depende tanto disto, que é natural que tu queira defender. É provável que tu só aceite te livrar daquilo que te faz miserável se tu conseguir enxergar que tem coisa melhor pra ti mostrar. Mas se tu não botar a miséria pra fora, como é que tu vai ver que era miséria e que tinha que ser botada pra fora em primeiro lugar?
Eu tenho sofrido por me expressar e por declarar tudo o que eu sinto, penso, as pessoas me criticam, me xingam, brigam comigo, me confrontam, eu sou humilhado e escorraçado se for necessário, e eu posso afirmar que eu sofria muito mais quando deixava estas coisas dentro de mim. Porque naquelas circunstâncias, eu acreditava que tudo o que eu tinha era muito bom, servia pra todo mundo e aquilo me tornava melhor que as outras pessoas, ou então me tornava uma pessoa boa. Mas eu não conseguia explicar porque é que eu fazia tudo errado, porque é que eu não conseguia conviver com as pessoas e afastava todo mundo.
É óbvia a resposta para mim hoje. Eu simplesmente não conseguia me livrar de preconceitos e burrices que eram as leis da minha mente e guiavam toda a minha vida. E por mais que as pessoas tentassem me mostrar minhas falhas, meus defeitos, a natureza real de toda minha miséria, eu não tinha como aceitar, porque todo e qualquer contraponto esbarrava no meu orgulho, e não existe, e nem nunca vai existir, um ser humano capaz de ser maior que o meu orgulho. Eu mentia pra mim mesmo, se fosse necessário, pra continuar imerso na minha bolha, no meu ego, defendendo quem quer que tentasse atacar minha vaidade e meu orgulho. Então qualquer pessoa que tentasse me ajudar eu enxergava como inimiga.
Para mim é absolutamente claro isto hoje, mas naquelas circunstâncias pareceria absurdo que alguém viesse me dizer isto. Se é este o teu caso, então é altamente provável que tu esteja na mesma situação. Eu posso olhar nos olhos das pessoas e ver o ego, o orgulho, a vaidade. E eu sei que não tem absolutamente nada que eu possa fazer para furar estes bloqueios. Não tem nada que alguém possa fazer pra te ajudar. Este é um trabalho solo.
Tu tem vergonha, ou medo, ou qualquer outro capricho que te impede de te abrir com as pessoas. Mas o paradoxo é este: se tu não te abrir, tu não vai conseguir nem ver que tu precisa te abrir em primeiro lugar. Se tu não te expor, tu não vai nem ter como entender porque é que tu precisa te expor. E é por isto que eu te convido a te questionar agora:
A tua situação está boa? Tu está plenamente satisfeitx com a tua vida? É melhor continuar te isolando do que te confrontar?
Porque é que tu está lendo livros sobre admitir que tu não é especial como tu pensa? Porque é que tu não está procurando gente superficial, medíocre e fútil pra ir lá mentir pra estas pessoas também, pra te ajudar a reforçar as tuas mentiras? Porque é que tu não está fazendo coisas pra te convencer de que tuas interpretações, sempre erradas, estão corretas? Porque é que tu não está procurando te iludir e continuar sendo imbecil? Não te agrada mais viver em fantasia e tentando amortecer e fugir com substâncias químicas ou outras coisas? Não tem mais pra onde tu fugir?
Sempre tem gente achando que tem soluções e opiniões sobre qual é a melhor forma pra te expressar. Há quem diga que aprender a escrever significa ler. Ler é a pior coisa que tu pode fazer. Se tu quer aprender a escrever, vai escrever. Inventa a tua gramática. Inventa a tua linguagem. Quer falar? Fala. Inventa o teu jeito de falar. Eu escrevo. Tu pode ter outra forma de falar, de te expressar.
Não há professor, mestre, autoridade ou qualquer outrx imbecil capaz de te ensinar a falar ou escrever. Tu é a única autoridade competente para determinar a melhor forma possível de te expressar. Se tu tem que escrever, falar, dançar, gritar, pintar, faz o que tu tem que fazer e para de perguntar para xs outrxs. Para de perguntar pra mim. Para de tentar entender o que eu faço. Vai te entender.
Teclados de computador, canetas, papel, muros, latas de spray, microfones, megafones, palcos, tintas, telas, jornais, radios, câmeras, são ferramentas. Fala, escreve, se expressa. Não tem outro jeito de se livrar disto que te atormenta a não ser botar pra fora. Não te preocupa, a natureza recicla tudo.
O que é um lixo tóxico para ti pode ser um tesouro inestimável para outrem. Daí a minha justificativa para escrever pensando em quem vai ler. Para mim este livro é inútil, fútil e irrelevante. Para mim, tudo o que eu escrevo aqui não serve pra ninguém. Para alguém que talvez eu nem conheça pode ser fator decisivo para salvar a vida. Eu não estou interessado nisto. Eu escrevo porque é a melhor forma possível de fazer o que eu tenho que fazer.
É provável que tu comece fazendo tudo errado. Eu me expressei das piores formas possíveis durante muitos anos até chegar neste livro. E eu acho que isto aqui está ruim, deve ter uma forma melhor. Mas é só isto que tem como fazer, erra e aprende com teus erros. Só não tem chance quem desiste.
Seja qual for a forma que tu encontre para fazer a tua autólise e botar o que tu tem de pior para fora, faça sem medo. Lembra-te, a pior coisa que pode te acontecer é a morte. Como não tem como fugir dela, não faz sentido temê-la. Só tem como tu te entregar para este processo realmente se for melhor morrer do que continuar da forma como tu te encontra.